Light or Shadow

Light or Shadow
I seek the Light...

Saturday, May 19, 2007

Que Historia de Vida !


Nasci com uma doença nos olhos e via tudo turvo. Depois de uma cirurgia, vi o mundo com nitidez e conheci o rosto dos meus filhos. Só enxerguei por 18 dias aos 37 anos.

A DONA DA HISTÓRIA: Silvânia Lucena, 40 anos, monitora de galeria, Brasília, DF

Abri os olhos e vi cores. Era de manhã, eu piscava sem acreditar que, sim, enxergava. Aos poucos descobri traços de que já tinha ouvido falar. Só me convenci quando li o nome do pintor no canto da pintura: Monet, um francês que fez quadros impressionistas há mais de um século. Alegria! Eu tinha 37 anos e o quadro foi a primeira coisa que vi com nitidez na vida.
Não nasci cega, mas só enxergava vultos e um pouco de luz. Era assim mesmo de óculos, que eu já usava aos 5 anos, quando ainda morava na Paraíba. Os médicos iam aumentando os graus e eu continuava sem enxergar. Eles achavam que eu mentia. Aos 20 anos eu usava lentes de 23 graus! E não adiantava.


>> Descobri minha doença tarde demais


Estudei em escola pública para quem tem pouca visão. Quando só enxergava letras na fonte tamanho 35, enorme, passei a ouvir as aulas. Quem me ensinou a andar em linha reta foi meu pai. Se eu caía, tinha de me levantar até aprender a me virar sozinha.
Só descobri que meu problema não era miopia quando fui morar em Brasília, aos 22 anos. Mas aí era tarde. Mesmo com o dinheiro que juntei como diarista não dava para fazer milagres. Eu sofria de uma doença de nascença chamada coloboma de retina e íris. E tinha catarata. Irreversível.
Levei a vida, mas fui ficando pior. Aos 37 anos estava praticamente cega. Como não tenho os nervos ópticos normais, um médico recomendou implantar anéis de sustentação. Antes da operação ele avisou que seria uma última tentativa para melhorar minha visão. Se não desse certo, não tinha mais volta. Decidi fazer.


>> Vi o mundo nítido!


Vinte e dois dias depois que me operei, estava me recuperando na casa de uma tia quando abri os olhos e vi o mundo perfeito. Primeiro foi o quadro, na parede em frente à cama. Depois, que emoção, vi tudo! Ninguém esperava por aquilo! Muito menos eu.
Nem liguei pras explicações.
Vi o rosto da minha mãe, dos meus três filhos e do meu primeiro neto! Foi fantástico! E o céu? O pôr-do-sol! A vida não é claro, escuro e vultos, mas cores, e tão fortes!
Que mudança radical! Enxergando me perdia na rua e me machucava porque não estava acostumada a usar a visão. Ao andar me desequilibrava. Esquecia de descer do ônibus porque ficava vidrada na janela. Tanta coisa pra olhar...


>> O escuro voltou, mas valeu a pena!


No 18º dia sem cegueira, no mercado com minha mãe, vi um monte de pontos pretos. Parecia areia nos olhos. Minha mãe achou que era o calor. Em casa me deitei na rede, fechei os olhos. Quando acordei estava no escuro. Fiquei angustiada, rezei. Abria e fechava os olhos, sem entender. Rezava de novo. Ao me levantar da rede não achei a porta, dei de cara na parede. Virei e bati em outra parede. Minha mãe veio até mim, choramos juntas.
Fiquei triste, mas estava preparada pra isso. Os médicos explicaram que o que tive foi um descolamento de retina. Agora não tem mais solução.


>> Não tenho do que reclamar!


Faz três anos que tudo isso aconteceu. Agora aprendi braile, uso bengala. Mas também danço forró, jogo dominó, faço remo e arco e flecha. Isso mesmo. O técnico direciona meu polegar para o alvo e eu me oriento assim.
Não tenho do que reclamar. Trabalho numa galeria de arte e uma das exposições que guio é de esculturas feitas por artistas cegos. Os que enxergam têm os olhos vendados e, no escuro, sentem as peças com as mãos e descobrem o meu jeito de "ver" as coisas. É emocionante. Para todos nós.


DA REDAÇÃO

O que aconteceu com Silvânia

Segundo o oftalmologista Renato Braz, o mais provável é que o coloboma de Silvânia não seja tão grave a ponto de comprometer definitivamente sua visão. O maior problema dela, explica ele, era a catarata. Por isso, quando ela se operou, passou a enxergar porque os olhos estavam livres da catarata. Contudo, explica o dr. Renato, existem riscos para a operação de catarata, especialmenteem quem tem coloboma. "A cirurgia de catarata aumenta o risco do descolamento de retina, Que foi precisamente o que ocorreu com ela", esclarece.
Coloboma é uma doença que o feto desenvolve ainda na barriga da mãe. É uma má formação dos olhos. Antes de ganhar a forma definitiva, o olho tem uma cavidade por onde vão passar os vasos sanguíneos que irrigam a região. O coloboma acontece quando essa cavidade não se fecha com o desenvolvimento do bebê, deixando a pessoa com um "buraco" no olho. "No caso do coloboma de íris, pode haver um incômodo por causa da entrada de luz, mas a visão pode ser perfeita. Mas, se o dano for mais extenso, a pessoa pode ter visão muito baixa", explica o oftalmologista Renato Braz, do Instituto de Olhos e Microcirurgia de Brasília (Inob).

[Fonte: UOL]


----Achei muito tocante !!


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